Natal



Natal é tempo de esperança. A cada ano, sempre que chega essa data o corre-corre aos shoppings e lojas assemelha-se a uma corrida de obstáculos. Todos querem comprar algum presente, pois além dos familiares há os amigos ocultos de toda espécie que surgem, e para isso é necessário espremer-se na multidão, levar horas em filas, tudo pelo Natal.
Em meio a toda essa azáfama, ainda há os preparativos para a ceia, a arrumação típica da época com árvores enfeitadas, guirlanda coloridas, pisca-piscas e um sem número de outras coisas indispensáveis à ocasião.

Entretanto, acredito que o mais importante, essencial até, é aquilo que deixamos de fazer e que deveria ser a verdadeira essência natalina: reflexão. Justamente nesse momento em que o fim de um ciclo anual se fecha, é que devemos parar um pouco e refletirmos sobre tudo o que fizemos ou deixamos de fazer, ponderar acerca dos erros e acertos, abrir o coração e permitir que mágoas, tristezas e angústias saiam, já que não são bem-vindas.

Lembremos que Natal é a festa cujo convidado maior é Jesus. Quando Ele nasceu trouxe ao mundo a esperança e a certeza de uma vida nova para a humanidade. A estrela de Belém não brilhou apenas para os Reis do Oriente, brilhou para todos nós, mostrou-nos um novo caminho.

Hoje, 24 de dezembro, véspera de Natal, é o momento certo para iniciarmos uma jornada nova, levando como companheiros o amor, a reflexão, a solidariedade, o entendimento, o respeito ao próximo, a cidadania, a ética, a aceitação, a vontade de lutar por um mundo mais justo, mais digno, mais feliz.

Um maravilhoso Natal a todos com as bênçãos preciosas de Jesus Cristo.

Etérea Eternidade





Quem dera eu pudesse prender em minh’alma
a juventude eterna,
e não sentir que o tempo passa célere pela minha pele, tentando tirar o viço,
querendo roubar a cor dos meus cabelos,
teimosamente pintados de rubro.
E tenta apagar a luz de meus olhos
que insisto em acender a todo instante,
nem que seja com o brilho de uma lágrima.
O tempo quer sufocar a voz
presa em minha garganta,
mas eu a solto com a força de quem tem fé.
Ele pensa que é mais esperto do que eu,
e lança sua força pra abater-me, mas endureço meu espírito e deixo-o alçar vôo livre como o condor.
Meu corpo buscou nos quatro elementos da natureza a matéria imortal, os elementos que tudo formam:
sou, fogo, água, terra, vento
sou humana e divina,
sou mulher e menina.
Ficarei para sempre suspensa entre o céu e a terra
misturada na poeira cósmica do universo,
porque trago em mim a centelha da divindade!

Guerreira




                
A face transparece serenidade.
A calma do olhar, o riso fácil...
A palavra alegre, os gestos amplos.
Mas a alma... Ah! quão diferente!
A alma chora, arrancando do fundo,
do mais profundo, do recôndito do ser,
um soluço que sai rasgando,
dilacerando o coração, apertando a garganta,
porém, sem explodir em lágrimas!
Olhos secos, aparententemente olhando o mundo.
No fundo são olhos que enxergam para dentro,
que vêem uma mulher frágil, sofrida,
solitária, incompreendida, insatisfeita,
triste, doída, cansada.
Cansada de se mostrar guerreira
de estar sempre de arma em punho, 
alerta para não se apanhada
em estado de fragilidade pública.
Pena ter que ser assim.
Tão sertaneja fêmea.
Melhor e mais fácil seria...
Apenas e tão somente
Ser mulher...
           

Humanidade





As luzes piscavam em meio à chuva como pequenos fachos coloridos. Hesitei por uns instantes entre ficar na segurança enxuta do restaurante e sair à rua garoenta àquela hora da noite. Resoluta, levantei a gola do casaco e mergulhei no espaço chuvoso e frio. Voltar para casa era a coisa mais racional a fazer, entretanto algo me impelia a caminhar sem direção certa.

Os rumores do trânsito, abafados pelo caos de meus pensamentos, eram quase inaudíveis. Estavam ali, eu o sabia, uma cantilena chorosa da cidade ainda desperta. Os pingos de chuva escorriam em meu rosto deixando-o gelado, entretanto não me sentia incomodada com isso, ao contrário, eram como carícia leve de mão amorosa.

Ao virar uma esquina avistei a pracinha vazia. Atravessei a rua, sentei-me no banco molhado. Um longo suspiro saiu do meu peito. Fechei os olhos. O que significava viver, afinal de contas? Acordar todas as manhãs, sair para o trabalho, exaurir parte da vida nesse correcorre repetitório? Trabalhar para ter... Ter comida, casa e demais coisas necessárias para se viver dignamente, e milhares de outras, gestadas pelo mundo moderno, dispensáveis até serem adquiridas; escravizantes após tê-las? Viver é isso?

Um gemido leve despertou-me daquele flerte com Kierkegaard. Um pequeno cão, molhado, de olhos tristes, transido de frio, estava ali a meus pés, tentando se proteger embaixo do banco. Éramos os únicos seres naquela praça chuvosa. Peguei-o no colo e de repente era como se tivesse acordado de um sono prolongado. O que eu estava fazendo ali debaixo de chuva, quase meia-noite num banco de praça? Era hora de voltar para casa! Ao olhar para frente, do outro lado da rua estava meu prédio. Inconscientemente eu fizera o caminho de casa.

Naquela fração de segundo eu entendi tudo. Viver é exatamente isso. Acordar, fazer coisas grandes e tantas outras insignificantes, porém necessárias. Trabalhar, sair, consumir o não essencial, mas acima de tudo, sorrir, amar, cantar, divertir-se. Viver era levar para casa um cãozinho perdido, faminto, molhado e dar-lhe nome, carinho, refúgio seguro. Viver é exercitar a nossa humanidade em pequenos gestos.


Labirintos






Perdida em labirintos cujos corredores eram arredondados, o pavor foi tão grande que me obriguei a despertar.  No meio da aflição ainda sonhando, lembro que pensei claramente: “Estou sonhando, tenho que acordar!”. Saltei da cama com o coração aos pulos! O relógio marcava 4h. Totalmente esperta, resolvi sentar-me na varanda onde corria uma brisa fresca. Ainda estava escuro.

A rua dormia deserta, o silêncio era quase palpável. Aos poucos uma barra esbranquiçada começou a se formar e as estrelas antes exuberantes em seu brilho, começavam a ficar pálidas, desaparecendo à medida que o dia ia clareando.

O sol, sem nenhuma pressa, ia se espreguiçando por trás das montanhas espalhando seus raios em todas as direções. O ciclo da vida se renovava, e o mundo ia cumprindo seu destino, percorrendo seu caminho no universo. Nós os humanos, passageiros da nave Terra, íamos também cumprindo a nossa estrada pelos labirintos da vida.

Durante o sonho lembro que lamentei não ter feito o mesmo que Teseu: não levei meu novelo de linha para ir marcando o caminho de volta e acabei, portanto, perdendo o fio da meada que não me dei ao luxo de levar. Faltou-me uma Ariadne para lembrar-me deste detalhe.

A vida é também um labirinto. Começamos a percorrê-lo após o nascimento. Não temos ideia do que virá pela frente, cada dia é um corredor a vencer sem sabermos aonde vai dar. Por mais que planejemos e tracemos estratégias para o amanhã, não temos garantias de que tudo correrá conforme nossa vontade. Acasos, surpresas, incidentes e acidentes são nossos labirintos diários, sem mapa, sem guia, sem placas de sinalização. Mergulhamos no escuro a cada acordar.  Aos poucos a trama diária da vida, vai tecendo nosso destino. Podemos, claro, mudar aqui e ali. Fazer e desfazer coisas. Construir uma base para que caminhemos numa estrada com menos altos e baixos.

Não sei por quanto tempo fiquei ali pensando nessas coisas. Os ruídos que vinham da rua, o cheiro de café fresco no ar, vozes que vinham de várias direções, anunciavam o início de um novo dia. Levantei-me preguiçosamente, afinal já era tempo de percorrer o meu labirinto de hoje. Se meus corredores iriam ser retos ou arredondados, não tinha a menor importância. Dentro mim ia a certeza de que sempre haveria um sol surgindo no final de cada noite escura.

Sem Você





Há um rio que corre em mim, de águas mansas e frias
que se derrama num oceano de incertezas e sonhos.
Há uma floresta de vontades que sombreia minh’alma
repleta de árvores cujos frutos nem sempre adoçam a boca.
Há um abismo de incertezas em cada final do dia
onde meus pensamentos mergulham em busca da esperança.
Percorro ruas desertas respingadas de lágrimas
que correm de meus olhos insones em busca nem sei de quê.
Há um vazio gelado a minha volta, um nada preenchido de saudade
e dessa dor que machuca sempre que penso em você...




A trilha





Segui a trilha que serpenteava montanha abaixo. Pequenas flores vermelhas e amarelas pincelavam o verde aqui e ali. Galhos frondosos faziam sombra e resfriavam o ar. Pensei em voltar. Nunca tinha ido tão longe, não conhecia direito o lugar. E se eu me perdesse? A despeito do medo, continuei em frente. Algo me impelia. Não tinha como retroceder.
À medida que o tempo passava, a trilha ficava mais estreita. Quantas horas eu estava ali andando sem parar um instante sequer? Perdi a noção do tempo. Não sabia mais se era de manhã ou de tarde. Era dia, isso eu tinha certeza porque havia claridade, céu azul, nuvens de algodão.
O ar cada vez mais frio causava-me uma sensação diferente quando inspirava com mais força. Minha pele pinicava como se pequenas agulhas estivessem entrando pelos poros. Entretanto não sentia cansaço. Parecia que eu dera apenas alguns passos, mas eu tinha certeza há horas eu pegara esse caminho. Olhei para meu pulso esquerdo e  só avistei a marca esbranquiçada. O relógio ficara em cima da mesa da cozinha...
De repente faltou-me o chão. Caí com força sobre um arbusto e bati com a cabeça numa pedra. A dor veio aos poucos... Abri os olhos e então me deparei numa clareira extremamente bela. Todos os tons de verde estavam ali representados. Flores, que eu nunca vira, formavam um tapete colorido que descia até as margens de um pequeno regato cujas águas corriam mansamente e desapareciam numa curva mais além.  Tentei ficar de pé.  O mundo rodou, tudo escureceu, não vi mais nada.
Acordei com a pancada da porta fechada pelo vento. Havia cochilado no sofá. Olhei para minhas pernas finas, flácidas, quase sem movimento. Puxei a cadeira de rodas, sentei, fui para o pequeno escritório onde o trabalho me esperava. Tudo o que eu mais desejava nesse momento era estar perdida naquela trilha da montanha...

Bandalha à vista





Estamos vivendo momentos difíceis no país e no mundo. Por aqui escândalos políticos acumulam-se uns sobre os outros. O povo vai remando contra a maré, tentando equilibrar-se nesse mar de lama. Com a chegada do verão faz medo ligar os ventiladores, afinal não se sabe o que vai voar...
Ah! Brasil, Brasil! Como pode você ser tão majestoso, com riquezas tão grandes, uma pujança que faz corar países de tons pastéis do outro lado do Atlântico, ser assim devastado não por terremotos que soterram crianças, ou ondas gigantescas que engolem cidades, nem furacões que deixam em sua passagem um rastro de destruição, nem vulcões que cospem furiosos toneladas de lavas incandescentes.
A nossa vergonha tem nome, CPF e endereço certo. Tem cor. Já foi verde e amarelo, agora é cor de burro quando foge... O nosso batuque hoje tem um som de caixas dois. A feijoada foi substituída pela pizza. O futebol cedeu espaço a outro jogo: o do poder, do tráfico de influências.
Como disse o poeta “não me convidaram pra essa festa...”, mas mostraram a cara. Houve uma época em que se dizia que Deus era brasileiro. Mas até Ele, não suportou a bandalheira e tirou férias por tempo indeterminado...

Eu em mim






Não me prendi em fios de seda insuportavelmente lindos.
Não me prostrei em relva macia e verde com cheiro de chuva recente.
Não me sentei em almofadas indianas de trama dourada com pingentes nos cantos.
Não me deixei molhar na espuma da onda que quebra preguiçosa na areia.
Nem deixei que o vento fustigasse meu corpo e despenteasse meus cabelos.
Quedei-me, apenas, vagarosamente no espaço de mim mesma
E embriaguei-me com os sonhos que deixei para trás
Senti o gosto da infância. Refiz o caminho.
Peguei o fio de meu destino e fui desenrolando.
Alcancei o sol.
Toquei a lua.
Dancei no espaço.
Desfiz as margens que me prendiam.
Acordei para a vida.



Amor versus Fidelidade





Outro dia, minha sobrinha recebeu uma mensagem pelo celular de uma organização que se denominava Second Love.  O texto dizia que se ela estivesse interessada em arranjar um “segundo amor” para apimentar a v ida, era só elaborar um perfil, enviar e eles cruzariam as informações no banco de dados para ver qual dos homens e/ou mulheres mais se ajustavam ao seu gosto pessoal. Não levei o caso muito a sério, porque achei que era piada de mau gosto ou coisa de quem não tem o que fazer.

Hoje recebo um e-mail encaminhado, explicando por A+B que ter um amante faz bem à saúde, diverte e aumenta a vontade de viver das pessoas. Não era conversa de leigo não, eram declarações de psicólogos e médicos. Fiquei espantada com tudo que li principalmente pela naturalidade como o assunto foi tratado. Parecia que ter um caso fora de uma relação estável, era algo tão simples como ir até a padaria da esquina comprar um pacote de biscoito.
Que a infidelidade sempre existiu isso é fato, e já serviu de matéria prima para obras literárias famosas como Madame Bovary e D. Casmurro, só para citar dois grandes títulos da literatura universal. Em contrapartida, sempre que é abordada seja na vida real ou na ficção, ela vem associada a um sofrimento profundo. Quem é traído/a desce ao verdadeiro inferno de Dante, com ganas de matar e morrer.
Não bastasse todo tipo de loucura que vemos no mundo de hoje, toda espécie de violência, agora se alardeia traição como panaceia para quem acha que a vida está sem graça, tediosa. Portanto, caso você esteja pê da vida e queira colocar pra fora sua insatisfação, entre em contato com o Second Love e arranje um/uma amante. Saiba, porém, que estará vendendo sua alma ao diabo, pois terá que aguentar o tsunami que virá quando sua cara metade descobrir a pulada de cerca.
Na crônica dominical “E o mundo velho acabou”, Aninha Franco escreveu que “o mundo velho é amor e sexo. O novo é sexo e amor”. Feliz é ela que sabe distinguir mundo velho e mundo novo. Eu já não sei de mais nada e confesso que de certas “descobertas científicas” prefiro não tomar conhecimento, principalmente quando estas tentam macular o que de mais bonito existe no ser humano que é a capacidade de amar. E amar, para mim, é jamais magoar o ser amado.

Entre pães, manteiga e arame





Em dezembro de 2010 começou a Primavera Árabe marcada por manifestações e protestos numa onda revolucionária em mais de dez países. Governos ditatoriais têm caído, outros estão na iminência de uma queda e assim no lado de lá do mundo as coisas vão mudando em meio a muita luta.

Nesse lado de cá, a primavera começa sem revoluções, mas com quedas. O couvert, por exemplo, caiu feio em São Paulo. Por lei, doravante está proibido naquele estado a cobrança do couvert. Se vai cair em outros estados aí já são outros quinhentos, mas tomara que sim! É um absurdo pagar por uns pedacinhos de pão ou um punhado de torradinhas besuntados de manteiga ou margarina que muitos restaurantes “oferecem” antes da refeição principal. Se for pra desembolsar meu suado dinheirinho com isso, dispenso. Pão com manteiga ou margarina eu como em casa todo dia.

Outra queda – essa realmente chocante e absurda – foi a do bonde de Santa Teresa provocando a morte de seis pessoas e ferindo mais de cinquenta. Onde já se viu amarrar peças com arame no lugar de parafusos e porcas?! Vinte e três falhas foram apontadas pela perícia dentre elas ausência de freio, estopa usada em lugar de tampa na caixa de lubrificação, peças feitas artesanalmente, água misturada ao óleo, enfim. E olha que o Estado do Rio de Janeiro é o responsável pelo bonde... O secretário de transportes anda tentando se explicar, mas até agora não disse coisa com coisa.

Eu ando morrendo de medo da Copa e das Olimpíadas... Já pensou se acontece uma coisa séria como a de Santa Teresa? Vai que resolvem amarrar alguma arquibancada com arame e a tragédia estará instalada. Já vejo as manchetes pelo mundo afora: “Arame de má qualidade foi usado na amarração de arquibancada que desabou”. “Ministro do Desporto explica tragédia: ‘O projeto era seguro, o arame é que não prestava!”.  Acho que vou comer pão com manteiga ou torrada com margarina, de quebra tomo um copo com água pra não engolir a seco... Tudo sem pagar o tal do couvert. Depois corro pra pegar o bonde, não o de Santa Teresa, Deus me livre! Mas o bonde da História, da Primavera Árabe.


Flores de Primavera




Um sentimento diferente, talvez inusitado, envolvia aquele lugar. Meio inexplicável... Era possível sentir como lâmina fina que suavemente roça a pele, mas não a corta. No ar um cálido perfume, daqueles que aspiramos com tanto prazer que prendemos a respiração para retê-lo um pouco dentro de nós. Uma luz diferente, tênue, mas bela, de uma beleza quase irreal.

Era como se estivesse num lugar de sonhos, como aqueles que aparecem em contos de fadas. Fechei os olhos e senti como se esvoaçasse, tal borboleta que levemente pousa de flor em flor. Uma onda de felicidade começou a tomar conta do meu coração aquecendo-o.
De onde vinham todas essas sensações? Que mistério havia ali que despertava os sentidos daquela forma tão arrebatadora? Estaria sonhando? Tive medo de abrir os olhos e descobrir que nada daquilo era real. Entretanto era necessário descobrir o porquê daquele doce mistério.
Lentamente, olhei ao meu redor e descobri a origem de tudo aquilo. Havia um pequeno canteiro de rosas amarelas, algumas ainda em botões, outras já abertas exuberantemente belas. Pequenas gotas de orvalho ainda brilhavam nas pétalas e nas folhas. Naquele recanto ali quase escondido a vida estava começando e anunciava que era tempo de abrirmos o coração para a alegria, a esperança, o amor, a renovação. O inverno poderia ter sido longo, cinzento, frio, triste, mas a primavera, enfim, havia chegado...

Caminhos e descaminhos



“Há pessoas sem as quais não podemos viver, mas temos que nos afastar delas.” À primeira vista parece estranha, até mesmo sem sentido tal afirmação, mas não é. A personagem de um filme pensava dessa forma no momento em que foi obrigada a mudar de cidade, deixando para trás a vida que até então levava.
Fechei os olhos e deixei que essas palavras ficassem rolando na minha cabeça, como folhas lançadas ao sabor do vento. Como é possível deixar alguém sem a qual não podemos viver? Só a morte, talvez, fosse capaz de tamanha separação. Sim, deveria ser isso.
Entretanto, como num desfile, começaram a passar no meu pensamento todas as pessoas que imaginei jamais poder viver sem elas e, no entanto, estavam longe, afastadas no tempo e no espaço.
Lembrei da melhor amiga. Dividi todos os meus segredos, falei das minhas paixões de adolescente, dos sonhos, com ela dividi as incertezas e medos. Foi a única pessoa para quem realmente eu abri meu coração. Não teria conseguido viver sem sua presença, seu ombro amigo, seu ouvido atento, a palavra confortadora, o sorriso doce. Há quantos anos não nos vemos nem nos falamos? Acho que uns vinte e seis, por aí...  
 E por onde aquele grande amor? O coração pulava no peito ao som de sua voz, a pele arrepiava ao toque de seus dedos. Os lábios macios tocando os meus, deixavam-me inebriada de amor! Era ele o meu futuro... Ilusão... Passou... O príncipe virou sapo há trinta anos... Afastamo-nos para sempre.
Depois vieram os filhos... Tão nossos! No ventre, no colo, no seio, ao lado nas vinte e quatro horas do dia. Foram crescendo, cada vez mais e mais horas longe de mim. Chegaram os amigos, os amores, o mundo deles. Nosso mundinho ficou cheio de saudade daquele tempo... Adultos têm suas vidas, seus gostos, suas manias. Estão afastados, fisicamente afastados...
E assim, em vida, a gente vai aos pouquinhos se afastando de pessoas sem as quais não podemos viver!

Moinho do Tempo







Venho refletindo há algum tempo sobre as mudanças de valores, costumes e hábitos pelas quais os seres humanos vêm passando ao longo dos séculos. Já houve época em que ter uma cabana para morar, alimentação frugal e uma atividade que rendesse algum meio para a sobrevivência do indivíduo ou do grupo familiar, era o bastante para que se vivesse de forma digna e sem o estresse de ter que bater ponto diariamente. As necessidades ainda não estavam atreladas ao consumo exagerado do mundo hodierno, dançava-se conforme o bolso e não no compasso desmedido do apelo comercial, da publicidade, da vontade de ter o supérfluo.
Ser feliz hoje depende muito do DVD de última geração adquirido em “doze suaves prestações”, da TV LCD Full HD com decodificador para TV digital, entrada HDMI e etc. e tal instalado no quarto, do home theather da sala de TV, do telefone viva voz com identificador de chamadas, do micro celular que grava, filma, acessa internet e monitora os passos dos filhos adolescentes, da câmera digital de preferência a partir de 12 mega pixels (nem sei como se escreve isso...), do tablet e sua tela touchscreen ...
Vive-se afogado num mar de controle remoto e para não perder cinco preciosos minutos — afinal tempo é dinheiro — tentando encontrar qual deles liga o micro system, a solução é etiquetar todos e depois fazer uma lista e colocá-la em lugar bem visível: 01 controle da TV do quarto das crianças, 02 controle das cortinas da sala, 03 controle do microondas...
Que saudade do tempo em que eu e toda a meninada da rua, no finalzinho da tarde colocávamos um banco comprido na esquina para esperar as primeiras estrelas surgirem no céu. Ficávamos com os olhos fitos no horizonte que aos poucos ia sendo tingido de lilás, dourado, rosa... Nossa! Nem sei mais quando foi que olhei para o céu pela última vez buscando ver estrelas. Se não as buscamos no céu seremos muito menos capazes de ouvi-las, como o fazia Bilac...
E pensar que embora queiramos tanto aquele computador ponta de linha, com gravador de DVD e CD, HD de 1 ou 2 terabytes, 500 mega bytes de memória e etc., etc., mesmo assim um dia todos morreremos e tudo isso ficará para trás. Bom, nada se pode fazer quanto a isso. O que me consola é saber que no dia que chegar a minha vez, os amigos e parentes saberão que fui desta para melhor através de um e-mail...



Próxima parada: pôr-do-sol




Gosto de ouvir os ruídos que vêm da rua. Esse barulho de cidade grande dá-me a sensação que faço parte de um mundo meio sem tempo. Há uma urgência presente nas coisas, nas pessoas... É como se vivêssemos à beira de uma catástrofe iminente, um apocalipse inadiável. Corre-se de um lado para outro num afã de formigas em vésperas de longo inverno chuvoso.
As árvores balançam seus galhos com suavidade, ao sabor da brisa fresca, mas não há quem observe esse leve vaivém, o cair de uma folha que mal roça o espaço entre o galho do qual se desprende e o chão.
O cantar da cigarra é abafado pelas buzinas e roncos dos motores. O mar encrespado pelo vento fica salpicado de pontinhos brancos semelhantes a porções de glacê cremoso. Pequenas aves marinhas voam por sobre as ondas sem se preocupar com a falta de tempo dos humanos.
No entanto, quando o sol começa a descer no horizonte, a inundar o céu de todos os tons da aquarela, mesmo os mais apressados param por alguns instantes e olham a bola incandescente que lentamente vai sendo engolida pela linha que divide céu e mar.
Felizmente - no meio dessa pressa insana - ainda há tempo para o pôr-do-sol. Resta, pois, uma esperança...


"Nada que é humano me é estranho"




Hoje acordei pensando em Virginia Woolf... Talvez porque esteja lendo As Horas, livro no qual ela é uma das personagens. Virginia era uma mulher que embora forte e à frente de seu tempo, sofria de profunda depressão. Suicidou-se enchendo os bolsos do casaco de pedras para em seguida lançar-se ao leito do rio que corria próximo à sua casa.
Há uma frase de Terencio, poeta e dramaturgo romano, usada no referido livro "nada que é humano me é estranho" que daria para encher laudas e mais laudas de teorias, análises, estudos. Com certeza mesmo que fosse profundamente pesquisado não se esgotariam as conclusões.
Não sou a pessoa mais indicada para lançar dissertações a respeito dessa declaração – não consigo na maiorias das vezes entender a minha própria alma, que dirá a dos outros –, mas creio que poderia dizer que a sabedoria conduz ao sofrimento. Digo isso porque ao se conhecer um pouco mais os fatos, acabamos por chegar no âmago das questões e descobrimos, ou pelo menos chegamos bem perto de descobrir, a raiz das ansiedades, das tristezas, dos traumas. O olhar crítico nos informa sobre questões que acabam machucando, abrindo algumas feridas.
A ignorância atribui a Deus a origem de todos os sofrimentos: "é a vontade de Deus...". Dessa forma simplista as coisas são mais ou menos explicadas e aceitas como inevitáveis. E se vêm daquele que é nosso Pai, não tem como questionar. É a isto que alguns chamam de karma e eu, de conformismo por ignorância.
Justamente pela não aceitação é que alguns buscam explicação para aquilo que acontece à nossa volta, e essa busca acaba em descobertas que aumentam o sofrimento.
De todo modo, prefiro ser uma sofredora inteligente do que alienar-me com um sem número de explicações pífias. E já que "nada que é humano me é estranho", continuarei segundo em frente com o intelecto sempre alerta, mesmo que vez por outra acabe "estranhando" aqui e ali, pequenas ou grandes coisas.
  

Enxergando na escuridão



Não sei se devemos cogitar determinadas coisas que nos acontecem. Essa história de ficar se perguntando: “Por que isso aconteceu justo comigo?”, ou “O que fiz para merecer isso?”, não leva absolutamente a lugar nenhum. É como estar perdido numa floresta e ficar dando voltas sem sair do lugar.

Devemos cogitar sim sobre as coisas que iremos fazer, as metas a serem alcançadas. Mas chorar sobre o leite derramada é morbidez. É brincar de “coitadinho (a) de mim, como sou infeliz...”, é ser como a hiena daquele desenho animado antigo que vivia repetindo: “Oh, céus! Oh, vida!”. E enquanto ela se lamentava Wally — seu companheiro de aventuras — gozava a vida, sabendo tirar proveito de todas as situações.
Diz o ditado que “o que não tem remédio, remediado está”. Pois bem, se alguma coisa aconteceu de ruim, de grave não tem mais jeito: aconteceu! É passado e o passado não pode ser consertado. Olhemos, pois para frente, pensemos nas lições que podemos tirar de cada situação, seja ela boa ou má. Fatalidades ou felicidades têm que trazer amadurecimento, conhecimento, experiência.
Prefiro sempre pensar que nossa vida é como um rio: às vezes as águas estão límpidas, correndo suavemente outras, ficam turvas, passam rugindo levando o que encontram pela frente. Cada situação tem sua beleza, nós é que não habituamos nossos olhos a enxergarem sob a escuridão. De toda forma, as águas de um rio estão sempre correndo, nunca ficam estagnadas, passam.
Deixemos, pois, fluir nossas vidas. Acompanhando-a claro, mas sempre com o pensamento no alto, pois há Alguém que olha sempre por nós, e nas horas mais difíceis nos carrega em Seu colo.

Sempre há um novo amanhã






Freud dizia que todo o trauma psicológico é de origem sexual. Quem sou eu para discordar do pai da psicanálise, mas creio que os nossos maiores problemas centram-se na carência afetiva. Não quero dizer com isso que sexo não é bom e nem primordial em nossas vidas, muito pelo contrário! Mas dói muito mais a falta de uma mão carinhosa escorregando pelos nossos cabelos, um abraço carinhoso, um beijo afetuoso. Dói essa sensação de se estar só, de saber-se só...
O ser humano não foi moldado para a solidão. Não somos “auto-sustentáveis”, estamos sempre na dependência do outro. Uma mão se encaixa em outra, para que juntas possam agir e interagir. O dito popular já diz que “duas cabeças pensam melhor que uma”. Portanto, duas pessoas sempre farão algo mais proveitoso: uma termina o que a outra começa, ou conserta o que foi começado mas não está a contento. Se nos bastássemos a nós mesmos não seríamos esse ser tão gregário: amontoamo-nos nas favelas, nos edifícios, nas estações de metrô, nos shoppings, nos cinemas. Não há diversão para um único espectador, nem futebol sem torcida, nem carnaval sem folião.
A vida nossa de cada dia é formada por uma infinidade de pequenas coisas. Um sorriso aqui, uma lágrima chorada às escondidas ali, conversas entre amigos, contas a pagar, planos a curto, médio e longo prazo.
Às vezes, da janela de meu quarto olho o pedacinho de céu — quase sempre azul — e ponho-me a pensar que por mais difícil por mais sofrida que seja a vida, viver é maravilhoso! Os problemas não duram para sempre, as dificuldades vêm e vão. Em algumas ocasiões, passam com extrema rapidez, noutras, demoram um pouco mais, como o galho levado pela enxurrada que fica preso na curva do rio: passa dias e dias ali retido, mas chega um determinado momento que a força da água o carrega para longe. O bom de tudo é termos sempre a certeza de que o amanhã virá, quiçá cheio de boas novas. Por isso, feliz amanhã para todos nós

Sonho, logo existo




Olhando a imensidão do mar, aquela linha quase invisível que separa água e céu, o pensamento era: o que haveria após?  Talvez o deus Atlas sustentando o Mundo, o abismo de águas jorrantes, a escuridão total... Que bobagem... Se a gente deixar o pensamento nos leva a desvarios sem tamanho, loucuras disfarçadas usando o pseudônimo de
 imaginação.
Todavia, mesmo sabendo que além daquela linha tênue o que existe é apenas a continuação da água e do céu, é tão sem graça, tão óbvio, que melhor mesmo é imaginar coisas mirabolantes, estapafúrdias. Depois do infinito – veja que absurdo, se é infinito como pode existir algo além de –, mas depois do infinito há um mundo desconhecido, maravilhoso cheio de seres interessantes e belos. E novidade maior! O tempo não passa!
Para além daquele fiapo de quase nada, há o universo fantástico dos que sonham, criam, inventam. É a terra daqueles que fazem de conta que o céu é realmente azul cheio de carneirinhos brancos chamados nuvens. É o habitat de quem não perde a esperança e canta a plenos pulmões canções de amor, acalantos para bebês dormirem, hinos de gratidão a Deus.
Olhando a imensidão do mar, aquela marquinha separadora de água e céu, lâmina imperceptível aos olhos de quem olha, mas não vê, enxergo um caminho de luz, um brilho de paz, um chamamento de amor e, tranquila, serena, caminho lentamente por sobre as águas, inebriada de felicidade. Sonho, logo existo!
  

RECEITA PARA UM DIA DE CHUVA FRIORENTO





Um bom agasalho de lã macia

Uma lareira com foguinho gostoso

Fondue

Uma taça de vinho - só uma, pois o excesso tira o prazer de saber aproveitar 
momento.

Um bom livro.

Qualquer das grandes divas do jazz como música de fundo.

Se tiver uma boa companhia, dispense o livro...

Leia as palavras não ditas pelos lábios

Mas expressas nos olhos amados...

Se quiser, dispense o vinho, para que o sabor dos beijos

Não sejam maculados pela bebida.

Mas nunca dispense a música.

Amor e música são inseparáveis

Num dia chuvoso e friorento...




A Fênix nunca existiu




 As pessoas deveriam escrever sempre coisas boas, que levassem alegria ao coração de quem lê. A mensagem teria que provocar paz, sensação de bem-estar e poesia. O mundo teria que parecer mais belo, após a leitura, e todos sentiriam uma espécie de euforia capaz de fortalecer espíritos combalidos. Essa deveria ser a missão do escritor (tido aqui como apenas alguém que rabisca textos e não aqueles que produzem obras-prima ou best-sellers).
Peço desculpas a quem lê hoje meus escritos, porque não anuncio coisas alvissareiras, não traduzo felicidade, não levanto a bandeira da esperança e da coragem. Não propago lição de como viver feliz num mundo que anda pelo avesso, ou como fazer sucesso em meio a uma época em que valores são transitórios e vale mais quem pode mais.
Estou aqui para fazer um testamento simples de bens imateriais, mas que são a tradução da minha vida. Portanto informo a quem interessar possa,  que as minhas agendas cheias de risco e rabiscos, confissões e mentiras, deixo-as para quem é capaz de enxergar a vida com os olhos da alma.
Os meus livros da Laura Ingalls ficam para todos os que não deixaram morrer a criança que existe lá dentro do coração, escondidinha, mas que é capaz de se sentir-se sentada nas tábuas duras de um carroção, achando maravilhoso viajar de um lado para o outro em busca  da terra “prometida”, onde fosse possível fincar raízes.
As poucas obras de Lobato ficam para os que se encantam com as peraltices da Emília, a sapiência do Visconde, a ingenuidade de Tia Nastácia, o protótipo da avó que todos queriam ter na vida que é a Vovó Benta, as brincadeiras de Pedrinho e o mundo encantando do Sítio do Picapau  Amarelo.
As fotos peço que quem as encontrar, deixe apenas aquelas em que eu pareço bonita. As feias, as que mostram uma cadeira com duas rodas e as que estou gorda queimem, por favor.  Não vale apenas conservar o que só trouxe tristeza.
Caso algum sonho teimoso tenha ficado escondido em alguma fresta de parede, atrás de algum móvel, dentro de alguma gaveta, sacudam para bem longe. Joguem-no às traças, mas não permitam que ele retorne ao mesmo lugar.
Hoje minha alma morreu um pouco mais. Uma parte de mim se foi, sem direito à volta, sem possibilidade de recaída, pois a tal da Fênix que renasceu das cinzas sempre foi uma grande mentira universal, nunca passou de lenda.



Fiandeira das palavras




Gosto de escrever ouvindo música. Parece que a música faz vibrar uma região do meu cérebro e as palavras fluem com mais facilidade. Ouvindo Claire de Lune, de Chopin meu espírito vaga e abstraio-me totalmente desse mundo físico. Dou-me conta apenas das letras que vão adquirindo forma, virando palavras.
Existe uma transcendentalidade na criação de um texto. Os limites a vencer nessa tênue linha que separa pensamento — abstração pura — e palavra escrita são fascinantes. Gosto de parir frases e depois ficar lendo tudo com certo orgulho mal disfarçado. Fico a lamber a cria num deleite por ver que sou capaz de juntar meia dúzia de termos carregados de sentido.
Claro que não há aqui nenhuma pretensão de colocar-me no panteão dos escritores. Não. Prefiro pensar em mim como fiandeira das palavras, que tecendo textos produz algo que alimenta a alma.
O poder da palavra me fascina! Às vezes coleante como uma serpente, ela vem enroscar-se na ponta da língua, pronta a dar o bote fatal: é a palavra que magoa, fere, faz sangrar. Outras vezes, chega disfarçada, é bonita, elogiosa, mas traça a maldade, enreda a quem ouve numa teia de mal-entendidos.
Entretanto, Gosto de pensar no lado belo da língua. A língua de Pessoa, que foi Alberto, Ricardo e Álvaro cada um fazendo uso da palavra a seu modo. Ou na língua de Guimarães Rosa, rica em neologismos.
As palavras devem ser mel em nossa boca. Devem servir para edificar, agradar. Mesmo quando é necessário dizer a verdade — e a verdade sempre dói — devemos depois soprar a ferida deixada usando de doçuras como: amo você, quero seu bem, estarei sempre ao seu lado, sou sua(seu) amigo(a).
Deixo, pois,  um pouco de açúcar para você que lê esta mensagem:
                                            Que o seu futuro seja glorioso
                                            Que o passado tenha servido
                                            Para fortalecer o presente
                                            E que o presente seja a porta
                                            De acesso para o sucesso.

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