Diálogo com Cartola







Envolta na penumbra da varanda, contemplava os últimos raios do sol levemente dourados.  De algum lugar vinha a voz rouca de Cazuza cantando Cartola. “Ainda é cedo amor/ Mal começaste a conhecer a vida/Já anuncias a hora de partida/ Sem saber mesmo o rumo que irás tomar”. Fiquei pensando se há uma hora certa para sair em busca do amor... Quem, por ventura, poderá saber a hora em que o amor chegará na vida? Impossível determinar dia e hora... O amor chega sem aviso prévio e sem cerimônia alguma vai tomando conta dos nossos espaços, instala-se e deixa-nos sem rumo uma vez que nosso caminho se funde no caminho do ser amado.

“Preste atenção querida/ Embora eu saiba que estás resolvida/ Em cada esquina cai um pouco tua vida/ Em pouco tempo não serás mais o que és”... Quanta verdade! Tomados pela paixão somos incapazes de perceber o quanto um pouco de nós vai se perdendo ao longo do caminho. Cegos de amor o “eu” deixa de existir, há apenas o “nós”... Enxergamos um mundo que não é real. O amor abre um portal onde o racionalismo e a concretude das coisas não cabem.

Na vaguidão daquele pôr-de-sol, fechei os olhos e deixei que a música fosse tomando conta de meus pensamentos. “Ouça-me bem amor/ Preste atenção o mundo é um moinho/ Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho./ Vai reduzir as ilusões a pó”. Tomados por tamanha felicidade, não percebemos o quanto frágeis estamos nos tornando. Quando se ama existe uma falsa percepção de que será “para sempre”, entretanto esse sempre nunca tem a mesma medida para o casal.

Esse mundo-moinho sorrateiramente aproveita-se de nossa fraqueza e sorve os sonhos, as ilusões deixando-nos apenas a profundeza do abismo de dor e sofrimento no qual fomos parar. Mesmo que alguém tivesse tentado nos avisar, como Cartola o fez em sua bela canção: “Preste atenção querida/ Em cada amor tu herdarás só o cinismo/ Quando notares estás à beira do abismo/ Abismo que cavastes com teus pés”, nada mudaria. Fomos feitos para o amor. Passaremos a vida levados pelo moinho, caindo em abismos, saindo deles, caindo novamente. É isso que dá sentido a nossa existência. Não me arrependo dos amores que tive, dos que perdi, dos que deixei de ter. Não importa se alguns amei em silêncio, o fato é que soube amar e pude ser feliz – mesmo que em momentos passageiros – e conheci o real sentido da vida.

Ausência






Há quase duas semanas minha mãe nos deixou. Inesperadamente ela fez sua passagem para outro plano, quiçá maior, mais cheio de luz, paz e amor. Com certeza ela está feliz entre os anjos e seus cânticos maviosos. Não sentirá mais cansaço, nem dor, nem medo, tampouco tristeza. Eternamente desfrutará da presença e do amor de Jesus.

Mas o que eu faço com essa saudade que machuca meu coração todos os instantes? Como preencher esse vazio imenso que ficou sem sua presença ao meu lado? Não estou apenas órfã, estou desamparada, porque por mais que eu me afastasse, sabia que ela estava sempre lá a minha espera. Minha solidão é grande, perdi o rumo de minha vida.

Sinto-me como uma folha que se desprende do galho e a brisa vai levando para um lado, para outro até que caia em algum lugar. Como afirma Drummond as mães deveriam ser eternas. Meu sono é vazio, deixei de sonhar, entretanto sei que em algum momento há de vir do céu um sopro manso e suave que irá banir minha tristeza, um sopro que não será outra coisa que um beijo de mãe vindo de longe, porém mágico, doce, vivificador. Um beijo seu, minha mãe.

Por uma vereda apenas...





Em certos momentos penso em fazer tal qual Virgínia: encher os bolsos de pedras e mergulhar em algum rio ou mar e deixar que a vida se vá misturada à correnteza... Sou muito fraca para isso, não tenho essa têmpera e, depois, penso naqueles que sofrerão pelo que fiz. Jamais serei capaz de agir assim, mas o mesmo não digo dos pensamentos...

Minha mente vagueia numa penumbra tal, que há momentos que perco a noção de tudo. Penso estar dormindo, porém há um mundo tão real, cheio de sons, cheiros e cores que a certeza de que estou desperta faz-me ver a dimensão imediata na qual me encontro. Meu sono, entretanto, é tão racional, sou tão eu mesma enquanto durmo, a ponto de tomar decisões só possíveis caso esteja acordada.

Perdi-me em meu próprio labirinto, ando à busca de um fio que me conduza à saída, que me indique rotas seguras, trilhas sem perigos, arenosas, sem pedras. Uma simples senda basta, desde que me traga de volta a mim mesma.

Turbilhão



Quando a vida da gente vira de ponta cabeça, começamos a juntar os pedacinhos que sobram. Nunca conseguimos colá-los nos locais exatos, mas, de um modo ou de outro, vamos dispondo-os da melhor forma possível. No entanto, quando uma fortaleza começa a ruir e por mais escoras que coloquemos não conseguimos contê-la, uma parte de nós desaba junto.

Ando tomada por uma estupefação sufocante. O inesperado tomou-me de surpresa, desarrumou minha vida, abalou meus alicerces. Tão repentinamente como um furacão que sai varrendo tudo e jogando para o alto o que está à frente...  Tento ater-me a algum ponto que me ampare, fecho os olhos e penso: “Vai passar”.

Sou um fiapo de nuvem que procura em Deus a força e a coragem para continuar, buscando uma vereda segura e reconfortante, uma enseada plácida onde possa respirar baixinho, vazia de dores e temores e prenhe de esperanças.

Pontos de Luz



Saudades são como pontos de luz que brilham em nós alegrando-nos ou entristecendo-nos. Mas viver sem saudade é como ter deixado a página em branco, não ter vivido.  Gosto de sentir saudade principalmente pela certeza de que não deixei para trás nada que pudesse ter sido diferente. Minha vida é fruto de minhas escolhas, portanto minhas saudades foram escolhidas lá atrás e são parte de mim.

Não lamento chorar por tristes lembranças, pois minha lucidez entende que felicidade amiúde é coisa impossível. Da mesma forma que tristeza amiúde é patologia e deve, portanto, ser tratada. O bom da vida é justamente este oscilar entre momentos alegres e tristes, bons e maus. Cada um, a seu tempo, tem seu valor e sua necessidade. Tudo que permanece igual por muito tempo vira monotonia.

Aproveitar cada instante, usufruir pequenos segundos preenchidos com sentimentos variados, mas que se intercalam e muitas vezes até se mesclam, requer sabedoria e paciência. O tempo não obedece a nossa vontade, é ele que dita os instantes que formam essa teia chamada vida. A nós cabe o esforço necessário, jamais além de nossas próprias possibilidade, de ir aproveitando esse tempo com o cuidado de não desperdiçar nenhum momento, porque um mínimo segundo pode ser fonte de inexplicável prazer e felicidade.

Costuro minha vida dessa forma simples.  O que chega para mim vou aceitando o que quero, empurrando para o fundo de uma gaveta o que não me agrada, explorando o que sei que dará bons frutos, aprendendo com meu erros e ouvindo quem sabe mais do que eu. Sou boa discípula, pois tenho certeza de que há muita coisa reservada em meu futuro, boas e más, e saberei dar conta de cada uma delas. No fim tudo será apenas pontos de luz, ou seja, saudades.

Sinais




Ele mergulhou na imensidão do oceano de si mesmo. Aos poucos foi fechando as comunicações com o mundo exterior. Era ainda uma criança e preferia o isolamento de seu quarto e horas a fio afogado entre carrinhos, bonecos de super-heróis, gibis. Para todos era apenas um menino tímido.

Anos depois, o olhar adolescente inescrutável, a não manifestação de sentimentos próprios, também não foi questionada. Os outros decidiam por ele o que comer, o que vestir, que escola cursar, que universidade futura, onde passar as férias, enfim, como viver. Havia uma fenda naquele oceano e daí ele imergiu para profundezas abissais.

Conviveu anos numa escuridão interna, numa confusão existencial nunca percebida pelos demais. O menino antes tímido, era agora o adolescente nerd, ou quem sabe o rebelde sem causa, coisas da idade... Carrinhos e bonecos foram substituídos por horas a fio diante do computador em jogos de guerra, destruição, muitas batalhas, explosões, mortes, bandidos, mais mortes...

As sombras densas, quase palpáveis tomaram conta daquele eu jamais percebido. Aos poucos foram ocupando todos os vazios interiores, suas células, seus pensamentos, sua vontade. Não havia mais nada de humano, só o insano, o escuro, um inexplicável ser atormentado não se sabe por quê...

Num dia azul de quase primavera, ele sai de casa silencioso, mochila às costas, entra num shopping, vai até a praça de alimentação e toma um sorvete duplo. Fica horas sentado. As pessoas conversam, comem, riem, despreocupadas. Ele abre a mochila, tira uma submetralhadora, dispara aleatoriamente. O último tiro é para ele mesmo.

Em meio ao caos, gritos, mortes, sangue e desespero, o menino tímido, o adolescente nerd, o rebelde, o jovem estranho jaz sem vida. Em que momento algo se rompeu dentro dele para chegar a esse ponto? É um monstro? Um louco? Psicopata? O que o fez assim? Não há respostas, mas certamente havia sinais o tempo todo... Pena ninguém ter percebido...

Barco ao mar







Em tardes mornas de primavera eu deitava na grama olhando o céu.  Fechava os olhos e imaginava um mar safira com espumas brancas, onde pequeno barco com vela carmim balançava ao sabor do vento e da água. Dentro, apenas eu sentada com os olhos mergulhados naquela imensidão azul. O único ruído era o murmurar de pequenas ondas no casco da embarcação. O mundo inteiro se resumia ao que os meus olhos alcançavam. Sem passado e sem futuro o tempo era aquele. A ampulheta parava, os relógios congelavam seus ponteiros, a vida estava suspensa naquele instante mágico. Dores e temores, medos e ansiedades tudo sumira no abissal abismo do oceano. Uma doce paz ocupando todos os espaços, enchia corpo e alma de uma gostosura cálida, crescendo até explodir num êxtase de pura felicidade.

Abrindo os olhos, ancorava meu barco de sonhos num porto imaginário, recolhia a vela e esvaziava o mar. Ficavam guardados para momentos de sonhos e devaneios em outras tardes primaveris. Durante meu tempo de menina fui marinheira de muitas viagens e desbravei oceanos mundo afora. Hoje meu mar é uma página branca que preencho de palavras, tal como pequenas embarcações que carregam sonhos, sentimentos, dores, amores, esperanças. Sou maruja da escrita, navego no universo da palavra e em minhas viagens vou deixando um rastro de sentimentos que ondulam no mar da vida.

Amor primeiro




O primeiro amor chegou em asas translúcidas de libélula e tinha o perfume de rosas recém-colhidas. Foi tecido por olhares furtivos e toques roubados por mãos tépidas que ofereciam doces sonhos enrolados juntos com balas em papel carmim. Trazia em sua inocência o leve rubor de romãs em fase de maturação.

Durou exatamente as fases da lua. Não mais. Foi o tempo exato e ideal como deve ser o tempo de um primeiro amor, uma vez que para ele não há amanhãs. Não teve começo. Foi descoberto da mesma forma quando se olha o céu e vê-se a lua nova fininha. Em que fração de momento terá ela aparecido? Não se pode afirmar ao certo quando. Da mesma forma, um dia qualquer ao olhar aquele alguém sentimos uma onda morninha tomar conta de nós e nossos olhos enchem-se de estrelas.

Entre risos e brincadeiras, sempre em meio a mil vozes, aquilo que não se sabe explicar fica em quarto crescente, enchendo as manhãs, povoando as tardes e transformando-se em sonhos à noite. Em castelos oníricos príncipe e princesa pulam corda de mãos dadas e correm abraçados por jardins pontilhados de pequenas flores do campo. Molham os pés em águas de regato límpido que desliza murmurante entre a relva macia.

Há uma reverberação tão grande em dado momento, que a vida tingida de prata fica presa num átimo como se ali fosse o único lugar onde deveria realmente estar: plena, inexplicável, pérolas de felicidade pairando sobre o mundo. Num círculo de luz argêntea há um amor puro que circula como casal valsando ao som de violinos. A perfeição envolve tudo em camadas de tinta multicolorida. O beijo úmido, rápido, a espera de ser roubado acontece. Rostos corados, espanto nos olhos, pés que correm em direções opostas...

O que brilhou em perfeição tal, começa a esmaecer sem explicação. Como um ciclo que deve ser cumprido... Guarda-se o primeiro amor em lugar exclusivo, afinal não se perde o primeiro amor uma vez que ele será sempre o primeiro... Sem perdas e danos essa será a joia mais bela e conservada por toda vida: o amor da inocência.

Mutações




Mergulhei em brumas cinza e frias, perdida em meio de fiapos de luz. Fiquei sem noção de tempo, espaço e lugar. Não estava em parte alguma e, sem relógios ou ampulhetas, minhas rotas não obedeciam aos princípios de começo e fim.

Nesse mundo atemporal, com pedras de cristal miúdo confeccionei a trama de um manto e com ele envolvi meus ombros cansados. Brilhei loucamente ofuscando o sol! Com assas nos pés voei por sobre cursos d' água, vi estrelas caindo e as recolhi. Eram leves, etéreas, pura luz.

Deslizei no clarão do luar encharcando-me de prata. Cintilei. Fui deixando para trás todo fardo humano: não havia mais dores, mágoas, desejos, paixões. Tornei-me um halo púrpura e habito permanentemente nas auroras e poentes. Fiz-me eterna.

Calar, calares...





Calar nem sempre é consentir. Muitas vezes calamos como forma de contemporizar. É o que acontece quando rola no ar certa tensão e, para que as coisas não descambem em uma discussão acalorada, calar é a melhor estratégia.

Também há o calar para poder ouvir o outro. Tal atitude, rara, por sinal, encerra acolhimento, cumplicidade e doação.  Na maior parte do tempo queremos ser ouvidos. A escuta de coisas que afligem as pessoas ao nosso redor é um hábito pouco desenvolvido entre nós.

Entretanto, a mais difícil forma de calar é aquela em que guardamos a nossa voz movidos pela dor, pois sabemos que naquele exato instante nenhuma palavra cabe bem. Falar movidos pela tristeza é deixar às claras a alma da gente de forma desprotegida, sem muros e nem véus. Não calamos por consentimento nesta situação, mas por medo de nos expor.



Em tempo




Quando a tarde caiu como uma manta dourada encobrindo a cidade, senti meu coração encoberto também por uma calma estranha, que foi tomando conta dos meus pensamentos. Fechei os olhos vagarosamente com medo de perder os últimos reflexos do dia que ia saindo de cena. De longe vinha o som abafado de uma melodia antiga que me transportava a outra época.

Ultimamente dera para escarafuchar o passado. Volta e meia pegava-me repetindo: “No meu tempo...”... Mas será que haverá de fato um “no meu tempo”? É engraçado como usamos essa expressão para mostrar coisas comuns nos dias de hoje e que eram muito diferentes há 20, 40 anos. E fazemos isso, geralmente, cheios de uma empáfia como se no tal tempo lá tudo fosse muito correto e nada acontecesse fora dos padrões sociais aceitáveis. Na verdade, naquela ocasião eu ouvia essa mesma expressão das pessoas mais velhas.

Pensando sobre isso entendi que cada dia é um tempo único, especial sem a mínima chance de repetição. Posso amanhã pegar o mesmo transporte para ir ao trabalho, mas as pessoas naquele ônibus, ou metrô serão outras. Executarei as mesmas tarefas no serviço, mas o clima terá mudado, o meu humor será diferente, os odores não serão idênticos. Jamais haverá um dia exatamente igual ao de ontem, portanto cada hoje será o “no meu tempo” de amanhã. Ou melhor, não existe “no meu tempo”, porque o tempo não tem senhores, ele se desenha e redesenha sem que seja necessária a nossa ação direta e a ele nós pertencemos. Somos viajantes de um tempo cuja irrevogabilidade é a única certeza absoluta.

Separação





Sinto falta da sua presença. Há um vazio diário no qual mergulho sempre que não há nada para fazer. É meu refúgio do mundo, da realidade, da vida. Esse aparente vazio é meu jardim secreto onde posso ser apenas eu mesma. Não há normas, nem horários, nem remorsos. Entretanto nem mesmo assim encontro você. Por mais que tente subverter a razão e me perder na loucura da saudade não consigo nos ver no passado. 

Há uma linha intransponível impedindo a minha passagem. Busco algum coelho branco apressado que me guie por um mundo sem começo e nem fim, mas não sendo Alice, não há país das maravilhas para mim... Sei que você está em algum lugar, quero achá-lo, mas não sei onde lhe perdi. Evoco seu rosto, seus olhos, sua boca, mas em minha memória há apenas um vulto, uma espécie de avatar: é a sua representação, mas nada se assemelha ao homem que amei. 

As lembranças são um amontoado de flores sem perfume. Para mim são inúteis, pois não resgatam a felicidade e nem diminuem a solidão. Não há bilhetes, nem papel de bombom guardado entre páginas amareladas de livros velhos, nem fotografias de outrora em que estejamos juntos. Não há nada. Resta-me apenas a sensação de que em algum lugar, não sei bem onde, nossas mãos entrelaçadas separam-se. Cada um de nós foi para um lado, seguiu seu caminho. Sem adeus nem até breve.

Águas de sal








Quando uma saudade entra sorrateira e se instala em minha vida,
um tremor agita a alma e o coração bate com vagar, sufocado pela angústia.
Não há remédio para dores da alma, são dores abstratas no vazio de uma vida.
A falta futura do que tenho hoje é absurdamente inverossímil...
Em fluidos de solidão perco-me. Em vestígios de angústia não me reconheço.
Sinto que alguma coisa se esvai entre sombras diáfanas e brisas leves.
Um sopro leve de tristeza semitonada enche de lágrimas meus olhos
Choro baixinho, sem soluços, nem mágoas. Choro por um adeus...

Vida em gris





Percebi que não havia luz naquela manhã, o céu sem nuvens apresentava-se cinzento e esta monocromia tirava-me o ar. Debatia-me num sofrimento onde a angústia era a dor maior. Chegara a um ponto da vida em que não valia a pena fazer balanços e nem especulações. Nada mais era relevante. Não havia mais para que... nem para onde... tampouco quem... Restara o nada e o absurdo de saber que isso era o fim. Era assim que coisas terminavam, c’est  la vie! Andava-se durante anos por estradas e veredas ora belas, ora feias, alegres e cheias de risos, ou tristes e com gosto de lágrimas. Não havia uma estrada reta, mas uma sucessão de curvas sinuosas. Numa curva qualquer perde-se o chão, e o corpo despenca num espaço infinito, vazio, frio... É assim que se morre? Não! Não é o fim da vida que rouba a cor e o sentido de tudo, é a morte dos sonhos tão somente...



Merônimo






Sentado num banco de pedra, o homem gasta seu dinheiro de plástico em milhares de supérfluos nano tecnológicos. Busca algo que preencha o vazio que aumenta a sua volta. Consome-se cada vez mais na procura e uma ansiedade viscosa adere-se à pele, à alma, sufocando-o. Que é de a alegria e os sorrisos de outrora? Que é de a leveza que o fazia flutuar em nuvens de algodão colorido? Perderam-se numa esquina qualquer, foram ficando para trás, trocados pela satisfação imediatista escondida, quiçá, na tecla de um remoto controle ou presos no pause break do micro de última geração. 

Esqueceu-se de colher risos em canteiros de marias-sem-vergonha, de cultivar sonhos prateados ao luar ou cheios de calor do sol. Perdeu a capacidade de ver a sutileza de uma gota de sereno mal dormido em madrugadas frias de inverno. Não sente a suavidade da folha leve que tremula e cai sem ruído do galho mais alto. Trocou a simplicidade das portas sem chave e das janelas abertas de onde cortinas diáfanas tremulam ao sabor da brisa vesperal, por vigilantes olhos ciclópicos e grades claustrofóbicas.

O homem sentado no banco de pedra deixou para trás a simplicidade, complicou o mundo, compartimentou os sentimentos, leiloou a tranquilidade, abriu mão da individualidade, virou um merônimo  de milhares de outros homens sentados em bancos de pedra espalhados pelo planeta.

Rascunhos




Fechar-se ao sonho, às ilusões, é enterrar esse lado lúdico inerente ao ser humano. O faz de conta é uma forma de lidarmos com os fracassos normais que permeiam nossa vida, mas a partir do momento que não me dou o direito de fazer o jogo do contente, coíbo a única maneira possível de ser um pouco feliz. 

Passei a vida quase toda fingindo que tudo estava bem, que era feliz – a despeito de tudo e de ruim ia acontecendo a minha volta – e que eu era capaz de superar as adversidades, por ser uma pessoa forte. Nada mais falso. Construí minha vida em cima de uma mentira deslavada, escondendo atrás de falsos risos a dor que feria e sangrava minha alma. O papel de boba da corte coube-me bem, mas é hora de dar um basta e assumir um papel onde a verdade seja regra e não exceção.

Não importa o que os outros vão pensar, que críticas serão feitas. Meus signos deixaram de ser fantoches nascidos do engano. Meu nome hoje é verdade, o destino será para onde a vontade me levar. Se tiver que passar por cima de determinadas regras, paciência, minha cota de madalena arrependida acabou. Doravante serei única, com personalidade advinda do rascunho do que fiz até hoje. Agora é tempo de passar a limpo o passado e caminhar para o futuro sem o peso do arrependimento. 

Sem sentido






Como barco perdido em meio ao oceano, meus pensamentos vagueiam numa mistura absurda de sentidos e falta deles. Por mais que queira coordenar o caos que se instalou em mim, minha vontade permanece estática. Falta-me força para organizar o meu eu partido em pedacinhos mil. É necessário juntar todos os cacos, não me permito abrir mão de nenhum deles, pois são partes deste quebra-cabeça que sou eu.

Passei a noite vagando na aridez de uma vida tantas vezes recomeçada, tentando encontrar a quietação necessária para conciliar o sono. Insone varei a madrugada úmida e vi os primeiros raios de sol clareando o dia. Uma névoa suave erguia-se do mar em direção ao céu e da minha janela vi pequenos barcos oscilando suavemente nas águas ainda noturnas. Vê-los era como enxergar-me balouçando nas ondas de uma solidão pegajosa, densa, sufocante.

Não me preocupa saber que há um fim para tudo. Essa certeza de finitude, aliás, é a única que tenho. Perturbar-me não encontrar respostas para minhas dúvidas e esta sensação de que deixei escapar aquele momento exato e único em que tudo é esclarecido. Cheguei ao clímax, mas perdi o desfecho de minha própria história. Sou personagem de um enredo cujo mistério me mantém suspensa desde que nasci. Desconheço-me.








Sombra de Flamboyants





Estrada


Infinitude





Assombrava-me a ideia de finitude. Vivia ensimesmada remoendo um sentimento de urgência como se o mundo fosse acabar de uma hora para outra. Procurava entender o porquê desse estado angustiante, mas quem poderá ter resposta para o inquestionável? Os pensamentos não tinham meio só princípio e fim, como se ao iniciar uma ideia, de repente, perdesse a memória e chegasse ao final em completa estupefação pelo absurdo do processo.

Queria explicações, minúcias, detalhes dessa coisa a que chamamos vida. Onde de fato tem início a nossa linha do tempo? Ao nascer? Antes disso? De repente você acorda e pensa: sou gente, estou vivo e sou integrante de uma sociedade que se diz humana. Sou mulher, sou homem, sou menino, menina. Devo aprender listas intermináveis do que é certo e do que é errado. Terei pessoas escolhendo tudo para mim: comida, roupa, hora de dormir, tomar banho, brincar, os amiguinhos, escola...

Sem estar ainda preparada, embora pense ao contrário, dou-me conta que já sou dona de mim e de minhas escolhas. Passarei o resto da vida errando e acertando. Achando que tudo corre às mil maravilhas, para descobrir adiante que as maravilhas viraram pesadelos. Na trilhas das dos amores, ficarão o salpico de lágrimas, misturadas a marcas de batom vermelho com gosto de paixão e desejo e um réquiem no final.

Não sei se existe alguma forma, mas tentarei erguer margens a minha volta e deixarei que minha vida apenas flua, serena, vagarosa para em um momento qualquer, de um dia qualquer desaguar num oceano sem águas, num mar de nuvens, num espaço luminoso, no infinito. Então não haverá começos e nem fins. Apenas o sempre, o eterno e Deus.


Viver simplesmente



Não quero desperdiçar o tempo que resta com falsas esperanças. Não farei planos mirabolantes e nem me alimentarei de desejos kafkianos. Dispensarei todas as possibilidades de resgatar o que já está definitivamente perdido no tempo. Apagarei todo e qualquer traço de angústia e não permitirei que elas solapem a minha vida. Sufocarei desejos estapafúrdios que queiram acorrentar-me em suas loucuras.

Descobri que a vida não precisa ser complexa, fantasiosa, nem pintada com recursos de luz e sombra de um quadro tenebrista. A vida pode ser apenas luz e mesmo que haja um pouco de sombra esta será reconfortante, como é a suavidade que habita sob a copa de árvore frondosa para o caminhante em estrada poeirenta.  

A vida é de uma simplicidade tão imensa, que é preciso viver muito para se descobrir essa verdade. Entretanto que mistério há no vôo da borboleta que adeja alegremente de flor em flor e em sua inocência enche de ternura o coração de quem as vê? Ou no quebrar das ondas que em movimentos suaves de idas e vindas beija a praia, murmurando declarações de amor?

A felicidade de viver está nas coisas mais simples e, muitas vezes, não percebidas. Por isso quero aproveitar o tempo que me resta reverenciando o sol que me aquece, as flores que tornam o mundo belo, a porteira entreaberta de um pasto verde, o cantar dos passarinhos ao amanhecer, as gotas de orvalho brilhando sobre a grama em madrugadas frias, a chuva que molha e faz a natureza renascer em cores vibrantes. Quero encher meus olhos com o pores-de-sol em todos os tons da aquarela, e deixar meus cabelos embaraçados pelo vento que embala as folhas e refresca minha face. Vou buscar sorrisos, colher beijos amorosos, afagos mornos e abraços apertados. Vou cercar-me de amor e assim, realmente poderei dizer: sou feliz.

Na Paleta da Paz





Olhei a parede branca e nua e pensei numa folha de papel. Talvez pudesse rabiscar alguma bobagem para não ficar tão sem vida essa parede. Ou quem sabe pendurar um quadro colorido, ou só em tons de azul para combinar com a colcha da cama. Poderia ser também uma série de retratos meus, como uma linha do tempo, mas creio que é perigoso deixar latente tanto narcisismo. Uma boa ideia seria grafitá-la assim teria um aspecto mais contemporâneo.

Sem me decidir por nada, quedei na poltrona mirando aquela brancura insossa, sem graça. Foi então que me ocorreu um pensamento estúpido, como tantos outros que me ocorrem, sobre o branco ser a representação da paz. Aprendi nos meus tempos de escola que a cor branca resulta da mistura das cores primárias, ou seja, sobrepondo-se o verde, o azul e o vermelho teremos o branco. Agora por que resolveram que essa cor é sinônimo de paz não faço a mínima ideia.

Considero falta de imaginação e bom gosto, pois um mundo descolorido é absolutamente intragável! Imaginemos, por exemplo, um céu sem o azul e todos os seus matizes. Um por-do-sol sem os roxos, os lilases, os dourados, os rosas, os vermelhos... não seria por-do-dol, até por que o sol nem seria amarelo, então teríamos por-de-nada. E o mar? Tão lindo e maravilhoso com azuis de infinitos matizes, se branco fosse onde estaria a beleza? Na espuma branca lambendo uma branca areia?

Quando olho um belo jardim repleto de flores e vejo perfumadas rosas vermelhas, dálias amarelas, violetas roxas, lírios alaranjados, miosótis azuis, hibiscos magentas, tulipas rosa e a explosão colorida das flores do campo, meu coração pulsa forte, meus olhos iluminados perdem-se naquela exuberância cromática e essa pujante beleza vai penetrando em meus poros, entranhando-se em minhas células.  Sou tomada por tamanho prazer e alegria que me sinto parte do universo e da vida. Sou também uma gota colorida da via-láctea.

Portanto, meu conceito de paz não se coaduna com o que foi institucionalizado no mundo ocidental e nem se reflete no branco. O mundo em paz transborda cores por todas as partes! Desde a natureza que orquestra a paleta infindável de tons e matizes ao homem com roupas em colorações primárias, secundárias, terciárias e complementares que pega seus pinceis e vai criando e recriando substâncias corantes até chegar na matemática, presenteando-nos, dessa forma, com a cores hexadecimais usadas nos pixels da informática. A paz não é de forma nenhuma branca! É cheia de cor, como a vida!

Tempos de Magenta




Naquela manhã, ao abrir a janela vi que no meu canteirinho de margaridas esquálidas crescia uma haste com folhas de um verde viçoso e brilhante em cuja extremidade havia uma flor vermelha. Não dava para identificar que espécie de flor era aquela que chegara ali tão lampeira, instalando-se sem nenhuma cerimônia, fazendo com que as outras plantas parecessem ainda mais desbotadas e tristes.

Nas casas vizinhas as floreiras estavam ressequidas e os galhos das poucas plantas que ainda restavam vivas, eram amarelados e curvos pelo acúmulo da poeira neles depositada. A estiagem prolongada pincelara de cinza jardins e quintais, cobrira o mundo com um manto triste e descolorido de viuvez hibernal.

O céu sem nuvens ia perdendo a cor e o azul já estava tão esmaecido que a impressão que se tinha era que um imenso filó desbotado, aos poucos, ia envolvendo tudo e todos. Não havia brisa, nem canto de pássaros. Sem flores, as borboletas foram adejar onde houvesse vida e cor e néctar. O que restava era um marasmo seco, modorrento que ia devorando a vontade, a alegria, a ânima daquele lugar.

De repente eis que surge a flor vermelha! De onde teria vindo? Como foi possível brotar assim tão bela em meio àquela terra agonizante? O fato era que ela estava ali lindamente agarrada ao solo ressequido, exalando um doce perfume. Tão repentinamente como a flor aparecera, surgiu uma borboleta amarela, seguida de um beija-flor azul. Gotas de chuva começaram a cair suavemente e com ela chegou a certeza de dias cheios de luz e tardes festivas.

Cheirinho de vida





Uma das minhas lembranças mais remotas é o cheiro do mar da praia de Botafogo. Cheguei ao Rio de Janeiro numa madrugada do ano de 1958, tinha seis anos. Ao passar pela praia de Botafogo, as ondas esbranquiçadas e pálidas pelo adiantado da hora, pareciam um borrão que batia nas pedras. Aquele cheiro de água salgada fascinou-me! Lembro que inspirei várias vezes o ar que entrava pela janela do carro numa tentativa, inconsciente, é claro, de reter na memória aquele perfume. Se eu fosse perfumista tentaria criar um perfume com cheiro de madrugada e mar. Colocaria num frasco de tonalidade clara do gargalo até a metade, daí para baixo teria o tom do mar, escurecendo gradativamente até chegar num azul escuro. Quando eu o tomasse entre as mãos e o sacudisse lentamente, seria como ondas quebrando nas pedras de um mar noturno.

O cheiro são sentimentos em estado gasoso. Cada perfume desperta um sentimento diferente em mim. Os odores foram marcantes na minha vida, porque sempre estiveram embaralhados às minhas emoções. Para mim eles são assustadoramente indissociáveis. Confundem-se de tal forma que não sei onde começa um e termina o outro. Os cítricos trazem a alegria de minha adolescência, do tempo que tirava umbu do pé, chupava cajá e fazia limonada para servir nas festinhas de aniversário. Os florais evocam romance, beijo dado às escondidas, cafuné, palavras apaixonadas murmuradas pertinho do ouvido. Entretanto se prevalecer o toque de violeta, prevalece também a tristeza, porque lembra namoro acabado, solidão, dias sem luz.

Perfumes amadeirados, por exemplo, principalmente aqueles com toque de cedro me trazem uma sensação de segurança, organização. Despertam-me um sentimento de amor filial quase palpável. Transportam-me no tempo e deixam-me em frente a um guarda-roupa enorme de madeira escura, onde meu pai guardava sua roupa sempre muito bem arrumada nos cabides, em gavetas e prateleiras. Nada ficava fora do lugar. Sempre que eu o abria para pegar qualquer coisa ou apenas para olhar aquele mundo masculino, o odor da madeira penetrava em minhas narinas e eu ficava extremamente feliz. Era o cheiro de meu pai.

Alfazema representa inocência, ternura, maciez, vida. É o aroma da maternidade. Tem uma sutileza, uma candura especial, o perfume dos anjos. Lembra chorinho de bebê que a gente acalenta, cantando baixinho:

É tão tarde
A manhã já vem,
Todos dormem
A noite também,
Só eu velo
Por você, meu bem
Dorme anjo
O boi pega Neném...[1]






[1] Música Acalanto de Dorival Caymmi 

Cristal em caixa de pedras




A menina mudara-se para a casa maior e mais bonita da rua. Na época o pé de flamboyant era um buquê gigantesco de flores vermelhas. As janelas dos três andares, após longo tempo fechadas, abriram-se para os raios de sol e a brisa mansa da montanha que balançava suavemente as cortinas.

Com o passar dos dias, aquela azáfama dos primeiros momentos de mudança foi diminuindo e, aos poucos, a rotina instalou-se. Entretanto, apesar dos dias claros e sol ameno, ninguém aparecia no jardim, a não ser um velho jardineiro que cuidava das plantas, fazia mudas, podava e aparava a grama.

Certa manhã de sábado, porém, ao passar pelo portão gradeado, avistei-a sentada no banco de mármore. Cabeça reclinada sobre um livro, estava tão absorta, que não percebia o mundo à sua volta. Deitado sob seus pés um setter irlandês cor de caramelo tão imóvel quanto sua dona. Entretanto assim que cheguei mais próximo do portão, levantou a cabeça olhando-me atentamente. Sua dona continuou impassível, imersa em páginas de histórias, quiçá fascinantes.

Não saía de casa a não ser para entrar no ônibus escolar que a pegava todos os dias antes no final da manhã. Nem aos sábados e domingos, dias em que nós crianças, brincávamos na rua tranquila e segura, ela aparecia. Ficávamos conjeturando o que ela fazia dentro daquele casarão. Certo que havia uma piscina nos fundos, longe do nosso olhar bisbilhoteiro, mas qual a graça de ficar mergulhando e nadando sozinha?

Nas férias, iam veranear na serra. Durante dois meses o 57 ficava fechado. A garotada ficava do outro lado da rua para ver a saída deles. Eram muito chiques. Bem vestidos, carro importado, malas elegantes. Na frente o casal, atrás uma senhora de cabelos brancos, uma mulher ainda jovem, talvez por volta dos quarenta anos e a menina. O carro subia a rua, fazia a curva e desaparecia.

Durante uns cinco anos, a rotina daquela menina, agora já quase adolescente, não se alterara. Era um ritual seguido à risca. Não recebiam quase nenhuma visita. Pouco saíam. Sabíamos os o horários em que o casal ia para o trabalho e a hora do retorno. A hora em que abriam as janelas e o momento em que as fechavam. Tudo cronometrado, sem novidades, sem mudanças.

Um dia notamos que a menina não morava mais no 57. Nunca mais o ônibus escolar viera buscá-la nem a víramos no jardim. Os adultos continuavam lá, mas ela não. Tempos depois uma das empregadas contou que a garota era filha de uma parenta distante da família. A mãe ficara viúva e os parentes abastados trouxeram a menina. Criavam-na com todo cuidado, carinho, escola cara, boas roupas, tudo do bom e do melhor. A única coisa é que não permitiam que ela saísse de casa, nem brincasse com outras crianças. Tinham medo de que algum mal acontecesse a ela. Achavam que a responsabilidade deles era muito grande, justamente por que não eram os pais verdadeiros. Agora já maior, ela dissera que não queria mais morar com eles, queria ir embora para junto da mãe e dos irmãos.

Assim foi. Abriram a porta da gaiola dourada e o passarinho voou para longe. Não mais casa com piscina, não mais veraneio na serra, não mais luxo nem riqueza. A liberdade a esperava numa cidade bem pequena, em uma casa simples e cheia de dificuldades. Não se pode proteger ninguém do mundo. Não há redoma que impeça a dor. Tolher a liberdade por medo e precaução é criar seres despreparados para a vida. Não se carrega cristal em caixa de pedras.

Entre luzes e cores





Bati a porta da frente e sem olhar para trás fui embora. Não me despedi de ninguém. Não levei nada comigo, nem mesmo uma bolsa de mão. Tudo que tinha ficou atrás daquela porta. Não me pertenciam mais. Ia começar uma nova vida, não podia levar junto o ranço de um passado em preto e branco.

Entrei na primeira loja que vi, comprei uma muda completa de roupa, saí deixando no provador até os sapatos velhos. Eu não existia mais. O que via refletido no espelho era o rosto de uma nova pessoa. Aquela outra eu deixara trancada e muda, assim que batera a porta do que fora minha casa.

A tarde quente de verão era só luz e cor. Andando pela calçada ao longo da praia um sentimento de liberdade ia enchendo cada pedacinho de mim. Tomada por uma onda de felicidade, percebi que a vida flertava comigo, e trêmula de paixão correspondi. Entretanto, mesmo caída de amor, decidi nunca mais aceitar mealhas. Doravante tudo teria que ser intenso, arrebatador. Aquela rotina comezinha, insossa, nunca mais!

Não iria mais economizar vida ou dividi-la em prestações. Joguei fora todos os pinceis sujos de cores frias e roubei a paleta quente de Cortès para pintar meu presente e futuro. A tarde ia caindo em adeuses dourados e lilases e nuvens cor-de-rosa. Olhei para o último raio de sol e deixei-me inundar por sua luz. 

Tempo de Framboesas




A estrada perdia-se na neblina matinal.  Por conta do denso nevoeiro, enxergava-se alguns metros à frente. Os poucos carros que passavam, iam em baixa velocidade, cautelosos. O ar frio da madrugada deixara pequenas gotas de orvalho nos pés de framboesa e ao pegar as pequenas frutas vermelhas, meus dedos enregelados puxavam-nas suavemente para que soltassem intactas dos finos ramos.



Era delicioso levar uma framboesa vermelha e linda à boca e sentir o sabor adocicado, a maciez. Naquele lugar elas nasciam livremente em meio ao matagal e eu repetia aquele ritual quase todo dia: perder-me em meio à bruma em busca dos pequenos rubis comestíveis. Meticulosamente afastava o mato que crescia à beira do caminho, procurando encontrar framboeseiras escondidas. Os pequenos espinhos da planta, em muitas ocasiões, furavam-me os dedos e as gotas de sangue misturavam-se ao vermelho do sumo da fruta em minhas mãos enodoadas.

Não tinha pressa. Como disse o poeta “o melhor o tempo esconde, longe muito longe...”. Portanto era com muita calma que adentrava pelo mato, atenta aos frutos cônicos pendurados nas pontas das hastes. Sempre voltava para casa com uma cestinha cheia, porém as framboesas maiores e mais doces, essas eu degustava durante o passeio.

A beleza natural daquele lugar era extraordinária! Em vários trechos havia filetes de água escorrendo do alto da serra onde o mato dava lugar à rocha. Samambaias, avencas e orquídeas misturavam-se a milhares de outras espécies nativas, cujos nomes desconhecia. Era normal, portanto, que na volta eu respirasse alegria e paz.

Naquela manhã, em meio ao meu regresso a casa, abraçada à cesta cheia de doces frutinhos, um carro passou por mim em altíssima velocidade e, instantes depois, ouvi um barulho enorme. O motorista perdera a direção ao fazer a curva e chocara-se com a montanha. Da porta parcialmente arrancada escorria um filete vermelho que, aos poucos, ia penetrando na terra bem próximo a uma framboeseira carregada de frutos. Não havia mais nada a ser feito. Eu e minhas rubras framboesas saímos dali mais pálidas. “O melhor o tempo esconde, ao longe, muito longe...”.



Caixa de Pandora




Abri aquela caixa amarelada pelo tempo e comecei a remexer o passado. Ali estava guardada uma parte de minha vida. Durante alguns instantes fiquei apenas olhando, não tinha certeza se queria remexer em lembranças já quase perdidas no tempo e na memória. Entretanto, um pequeno envelope azul chamou-me atenção. Não havia nada escrito. Ao abri-lo encontrei a fotografia de uma garota de mais ou menos oito anos. Parecia feliz, pelo menos havia um sorriso nos lábios e o brilho dos olhos transmitiam aquela serenidade só encontrada no olhar das crianças.

Em cada pedaço de papel havia o registro de acontecimentos passados. O cartão postal em preto e branco da cachoeira Véu da Noiva veio carregado de saudade. Lembro perfeitamente do dia em que o comprei. Tínhamos passado um dia maravilhoso e ao voltarmos paramos numa banca de revistas e lá estava o postal. Levei-o comigo.

Encontrei por baixo de um monte de cartas, um caderninho de endereços. A capa de cetim preto trazia um dragão vermelho e dourado pintado à mão...  Meu Deus! Há mais de quarenta anos não via aquela agenda. Passei os dedos levemente no tecido tentando resgatar o passado por inteiro através desse toque. Aquelas páginas estavam povoadas por pessoas que em algum momento tiveram seus caminhos entrelaçados ao meu. Fechei os olhos e deixei as lágrimas rolarem livremente. O que mais doía era a certeza de que jamais teria de volta essa parte da minha vida.

Nesse momento decidi não olhar mais nada. Fui colocando tudo de volta na caixa. A menina da foto não tinha mais a pele acetinada, a beleza, o riso inocente. O tempo deixara suas marcas e fizera seus estragos. Apesar de tudo, foi com alívio que coloquei aquela parte da minha vida de volta no lugar onde deveria estar. Passado é passado. Tudo ali foi importante, claro, mas não era mais novidade. Melhor do que ficar chorando lembranças boas ou más era aguardar as surpresas e as novidades do amanhã. 

Viajantes do Tempo



Domingo de céu nublado... Pingos de chuva... Barulhinho de água escorrendo pelos beirais... A chuva são lágrimas do céu que purificam a Terra. Quando ela vai embora tudo fica mais reluzente, mais bonito, há um frescor natural que revigora a natureza.

Quando choramos acontece mais ou menos a mesma coisa. Também somos purificados. Ao chorarmos de alegria, o coração fica mais leve, o brilho dos olhos aumenta, a pele fica mais fresca e acetinada. É o efeito natural da felicidade. Se forem lágrimas de tristeza, sempre trazem um ensinamento. Acima de tudo, servem para lembrar a nossa condição de humanos: estamos aqui apenas passando uma chuva...

De toda forma, precisamos aprender com as alegrias e as tristezas, pois são dois pólos da nossa existência e a maneira como lidamos com ambos, forma o mapa da nossa vida. Como viajantes do tempo seremos grandes ou medíocres, fortes ou covardes, alegres ou infelizes, amorosos ou egoístas conforme as lições tiradas de cada lágrima, de cada riso, de cada fração de segundo da vida.

Fiat Lux[1]





A única luz que entrava naquele quarto vinha através de uma fresta do telhado. Um raio de claridade descia do alto ao chão e era possível ver grãos minúsculos de pó suspensos num ir e vir ininterrupto. Deitada na pequena cama olhando esse ponto luminoso, era como se estivesse vendo tudo de um lugar fora de meu corpo. Via-me ali inerte, olhos abertos fixos na tênue claridade.

Os pensamentos atropelavam-se como se empurrados por uma onda imensa de saudade e angústia. Imagens de tempos idos vinham em flashes, entrelaçados no tempo e no espaço sem obedecer a uma ordem cronológica. Alguma coisa se rompera e trouxera o caos, esse caos absurdamente doloroso, sufocante.

O que fazer quando todas as perspectivas diluem-se num átimo impreciso, sem deixar rastros nem possibilidade de retorno? Como lidar com ausências insupríveis? Que fórmula mágica seria capaz de subverter o imenso vazio daquela vida pautada em metáforas subtraídas de um conjunto de ideações? Onde encontrar respostas para inquietações que teimam em buscar um elemento resolúvel?

Inesperadamente o raio de luz projetou-se em meu rosto, obrigando-me a fechar os olhos. Fui envolvida numa mornura gostosa como colo de alguém muito amado. Um conforto, a princípio sutil, foi tomando meu corpo, minha alma, meu coração. A gelidez, antes dona de mim, aos poucos foi dando lugar a algo que penetrava como fagulhas e trazia-me de volta à realidade. Compreendi que a vida é isso, saudades, começos, finais, recomeços, risos, lágrimas, conquistas, fracassos, amores, desamores, escuridão e, no fim, a luz. Não importa que seja apenas um pequeno raio vindo de uma fenda nas telhas, mas é luz e na claridade enxergamos melhor e podemos entender alguns dos mistérios desse que é o nosso maior mistério: a vida.




[1] Fiat Lux: Expressão latina que significa “faça-se luz”.



Aquarelas do passado







Percebi o tamanho da minha saudade no momento em que não pude mais calcular quanto tempo fazia que determinadas coisas haviam acontecido. Essa impossibilidade de especificar o quando foi, de certa forma, aterrorizou-me, pois senti-me despida de meu passado. Se já não podia encontrar o quando, era bem provável então que metade daquilo que eu chamava de lembrança, nunca tivesse, de fato, ocorrido.


Com o coração aos pulos, comecei a remexer gavetas há anos trancadas, em busca de pistas. Quem sabe em algum pedaço de papel amarelecido pelo tempo, encontrasse rabiscada alguma informação preciosa, uma palavra carregada de informação exata, qualquer cartãozinho importante. Nunca fui dada a fazer diários e agora, tardiamente, arrependia-me.


Encostada na parede, olhos fechados, vislumbrei a fachada da escola que estudara. Um prédio antigo de dois andares com janelas em estilo colonial pintadas de verde, uma alta palmeira no jardim. Crianças e adolescentes entrando pelos portões num burburinho entremeado de risos. Sabia que eu estava no meio deles, mas não conseguia me ver. Em não me vendo, era impossível determinar se era uma menina ou uma adolescente. Estudara a vida toda ali. Que momento seria esse?


Em meio a toda essa assincronia, comecei a perceber que também as lembranças têm prazo de validade. Chega um momento que elas começam a se transformar em borrões esmaecidos, pinceladas em guache quase apagadas na memória. O que resta é a saudade não se sabe bem de quê, de coisas que aconteceram não se sabe quando


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